"
Ao longo das reflexões, perceberemos que nossa moderna visão do mundo ainda esconde muitos preconceitos metafísicos; esses preconceitos fazem com que vejamos os fatos sob uma ótica constantemente falsa; fugimos daquilo que, inescapavelmente, determina nossas vidas. Sentimo-nos solitários, mas nunca tentamos entender por quê; sofremos, mas não damos importância a isso por acreditarmos que nossas vidas caminham em direção à felicidade absoluta; somos egoístas e hipócritas, mas não o admitimos porque consentimos em ser calados pelas convenções sociais; indivíduos matam-se todos os dias e, em vez de tentar entender o porquê, simplesmente repetimos chavões mecanicamente até alguma ocupação nos tirar essa ideia angustiante da cabeça. Fugimos de todos esses assuntos como covardes.
Deixamos essas questões de lado porque pensamos que investigá-las nos conduziria à loucura. Muito pelo contrário; isso nos conduziria apenas à lucidez, nos permitiria viver com os pés no chão. As respostas para tais questões são muito mais óbvias do que pensamos, e muitas vezes sabemos quais são. Parece quase surreal que, para proteger pequenas ilusões cotidianas, inventamos grandiosas ilusões metafísicas. Contudo, é fato; realmente fazemos isso. Preferimos abraçar várias ilusões absurdas a aceitar a realidade mais elementar, que está bem diante de nossos olhos. Todas essas incoerências são resultado dos preconceitos metafísicos aos quais ainda nos agarramos desesperadamente em busca de um sentido que não faz sentido algum. Afirmamos que tais assuntos são demasiado profundos apenas como pretexto para tratá-los superficialmente; vemo-los como perguntas impossíveis de ser respondidas apenas porque temos medo das respostas.
Nós realmente somos aquilo que parecemos ser: máquinas. Não há nada por detrás. Esse por detrás foi inventado por nós numa tentativa infantil de humanizar a existência. Já perdemos tempo demais nos enganando com esse conceito falso de profundidade do saber. Temos o mundo diante de nossos olhos, e podemos compreendê-lo nós mesmos. Não precisamos do intermédio da ótica de alguma teoria que tenta garantir que nosso cérebro nunca se torne parte da equação. Esse é o único modo de chegarmos a compreender todas as nossas limitações, mas também todas as nossas possibilidades reais, e empregar todo o nosso entendimento para tirar algum proveito de uma existência tão pouco aproveitável como a nossa.
Temos diante de nós a tarefa de realmente nos valermos de nosso conhecimento; desnudar o homem moderno; apontar seus preconceitos metafísicos e morais; quebrar algumas de suas muletas, algumas de suas dúvidas mais vergonhosas; trazer à luz algumas de nossas mentiras mais sagradas, algumas de nossas verdades mais secretas. É uma dolorosa revisão da realidade, mas há muito necessária para limparmos a vista."
(fonte: http://niilismo.com.br/resenha.php )
Assinar:
Postar comentários (Atom)
ELEGIA 1938
ResponderExcluirTrabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - POETA, FARMACÊUTICO, BRASILEIRO E SER HUMANO DO MUNDO.
Não devemos ser apegados ao que não é bom.
ResponderExcluirSeja pobre ou seja rico.
simples assim
ResponderExcluirAHAHAHAHHAHA!
ResponderExcluirDIOGO, ESSE POEMA É SIMPLESMENTE MARAVILHOSO, OBRIGADA!
RELI AGORA E TALVEZ POR ESTAR NUM MOMENTO DE MAIOR ATENÇÃO, DEI UMA GARGALHADA DE DESPERTAR!
e por falar em sementes, vou fazer uma nova postagem.
beijo no coração de todos.